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Dr. Thiago Matias
Aula · Motivação em Saúde

MUDANÇA

de comportamento em saúde

Motivação, formação de hábitos e estratégias de implementação para mudanças que duram, em pacientes e na própria vida.

MOVO-ME, LOGO PENSO
Quem fala

Thiago Matias

Doutor em Ciências do Movimento Humano. Professor e pesquisador do comportamento e da motivação humana.

UTPAAutor da Unifying Theory of Physical Activity, com Joe Piggin
~100pesquisas em periódicos nacionais e internacionais
GuiaPesquisador do Guia de Atividade Física para a População Brasileira
UNILIFE-MColaborador de um dos maiores estudos do mundo sobre estilo de vida e saúde mental
PERCEPÇÃO AÇÃO GAP

Essa aula é sobre a distância entre a percepção e a ação.

Uma era paradoxal

Nunca soubemos tanto. Nunca nos movemos tão pouco.

23,4% 31,3% 35% 2000 2022 2030 (projeção)

Adultos insuficientemente ativos no mundo. 5,7 milhões de pessoas, 197 países. Strain et al., Lancet Global Health, 2024.

81% dos adolescentes no mundo não atingem as recomendações mínimas de movimento.

1,6 milhão de estudantes, 146 países. Guthold et al., Lancet Child Adolesc Health, 2020.

A armadilha do saber

“Agora você sabe. E saber é metade da batalha.”

Bordão do desenho G.I. Joe, anos 1980. Santos & Gendler, 2014; Kristal & Santos, Harvard, 2021.

Juízes em Israel
65%→~0%

Liberdade condicional concedida no início da sessão e logo antes da pausa para comer. Profissionais treinados, cientes da imparcialidade, e com fome.

Danziger, Levav & Avnaim-Pesso, PNAS, 2011.

Revisão de determinantes Intervenções baseadas só em conhecimento têm efeito sem importância.

Educar é necessário. Mas conhecer um viés não nos torna imunes a ele.

Albarracín et al., 2024.

Um teste rápido

O que você prefere?

R$ 100hoje
OU
R$ 110amanhã
A maioria pega os R$ 100 agora.
R$ 100daqui a 30 dias
OU
R$ 110daqui a 31 dias
Quase todos esperam os 31 dias.

A mesma espera de 24 horas. Escolhas opostas. Isso é o desconto hiperbólico.

O despertador toca às 6h

Quem planeja não é quem executa.

domingo à noite 6h da manhã → Saúde Mais 30 min de sono a preferência se inverte

Valor percebido de cada recompensa à medida que o momento da decisão se aproxima.

Eu planejadorVou correr, com certeza. A saúde vale mais.
Eu executorSó mais trinta minutos…

Mensagens sobre saúde futura convencem o planejador. Quem decide é o executor.

Thaler & Shefrin, Journal of Political Economy, 1981.

A ideia central

Saúde é um valor fundamental. Mas agimos apesar dela, não por causa dela.

Motivação em Saúde, cap. 9.

O caminho de hoje

Três pilares para uma mudança que dura

1

Motivação

Por que mudar: impulsos, necessidades, sentido. É o que dá início.

2

Hábito

Como repetir sem esforço: gatilhos estáveis, ambiente e identidade. É o que sustenta.

3

Implementação

Quando, onde e como agir: planos concretos para os momentos difíceis. É o que protege.

E, no fim, como levar isso para o consultório e para a própria vida.

01

Motivação

Por que nos movemos, e por que a qualidade da motivação importa mais que a quantidade.

A primeira mudança de comportamento

Minutos depois de nascer, o bebê rasteja até o seio da mãe.

choro→calmamedo→calordesespero→alimento

Penso, logo existo.
Movo-me, logo penso.

A ação vem antes do sentimento.

Teoria Unificada da Atividade Física

Quatro impulsos nos colocam em movimento

01

Sentir

Buscar sensações para regular as emoções. Do equilíbrio na ioga ao bolo da receita da avó.

bem-estaralegriapresença
02

Explorar

Cruzar a fronteira entre o conhecido e o desconhecido. Onde há rotina absoluta, esse impulso morre.

curiosidadedesafiosuperação
03

Transformar

Exercer esforço para mudar o corpo e o mundo. O jardineiro e a terra, o artesão e a madeira.

progressomelhoraautonomia
04

Conectar

Vincular-se a si, aos outros e ao mundo pela ação. A torcida, a dança, a mesa compartilhada.

acolhimentopertencimentoencontro

Matias & Piggin, The Unifying Theory of Physical Activity, Quest, 2022.

Teoria da Autodeterminação

Os impulsos criam o potencial. As necessidades decidem se a ação dura.

SentirExplorarTransformarConectar
→

Autonomia

A pessoa escolhe e se reconhece na mudança.

Competência

Ela se sente capaz de conseguir.

Vínculo

Ela se sente apoiada por alguém.

→
Motivação autônomapersistência, vitalidade, saúde como consequência

Deci & Ryan, Teoria da Autodeterminação; Matias & Piggin, 2022.

Qualidade, não quantidade

Não importa só o quanto alguém está motivado. Importa por quê.

ControladaAutônoma
AmotivaçãoNão vejo motivo.
ExternaPorque me pressionam.
IntrojetadaPorque me sinto culpado.
IdentificadaPorque reconheço que é importante.
IntegradaPorque faz parte de quem eu sou.
IntrínsecaPorque sinto prazer.

O objetivo não é tornar tudo prazeroso. É deslocar a pessoa para a direita: da culpa para o valor, da obrigação para a identidade.

Ryan & Deci, 2017.

Copenhagen City Heart Study

Que esporte faz viver mais?

Tênis
+9,7 anos
Badminton
+6,2
Futebol
+4,7
Ciclismo
+3,7
Natação
+3,4
Corrida
+3,2
Calistenia
+3,1
Academia
+1,5

Os três primeiros exigem um parceiro. Há comunicação, jogo, riso e vínculo.

Nyhavn, canal de Copenhague, ao pôr do sol
Nyhavn, Copenhague. Foto: Moahim, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Anos de vida a mais em relação aos inativos, ajustados por idade, sexo, volume de atividade, tabagismo, escolaridade, renda, álcool e diabetes. 8.577 pessoas, até 25 anos. Schnohr et al., Mayo Clin Proc, 2018.

Modelo conceitual do estilo de vida

Da ação à consequência

01

Ação

Jogar tênis com os amigos, de novo e de novo.

→
02

Domínio social

A repetição constrói vínculos e pertencimento.

→
03

Mecanismo de enfrentamento

Necessidades nutridas regulam o estresse e reduzem a carga alostática.

→
04

Saúde cardiovascular

Menos risco patológico.

→
05

Longevidade

A soma desses processos ao longo do tempo.

As necessidades sustentam e mantêm a motivação para a ação
Tempo da ação: agoraTempo do resultado: décadas

Figura 2. Modelo conceitual do Estilo de Vida: da Ação à Consequência. Matias, Motivação em Saúde (Manole, 2026), cap. 3.

Comunicação em saúde

Fale com o começo da cadeia, não com o fim

Mensagem tradicional

Jogue tênis para reduzir seu risco cardiovascular em 20%.

Mensagem baseada em evidência

Jogue tênis para se divertir com seus amigos e aliviar o estresse de hoje.

Impulso→Necessidade→Motivação autônoma→Saúde, como consequência

Pergunte “que impulso essa atividade satisfaz?”, e não “que doença ela previne?”.

Williamson et al., Int J Behav Nutr Phys Act, 2020.

Um modelo para diagnosticar

O que precisa estar presente para o comportamento acontecer

Capacidade

Física e psicológica: saber e conseguir fazer.

Oportunidade

Física e social: tempo, acesso, ambiente, apoio.

Motivação

Reflexiva e automática: querer e ter o impulso.

→

Comportamento

Se falta um dos três, a mudança não se sustenta.

Modelo COM-B: Michie, van Stralen & West, Implementation Science, 2011.

Modelo transteórico

Cada estágio pede um profissional diferente

Pré-contemplação

Familiar compreensivo

Acolher, validar, informar sem ameaçar. Nada de pressão.

Contemplação

Professor socrático

Explorar a ambivalência com perguntas abertas e escuta reflexiva.

Preparação

Treinador experiente

Plano concreto, metas graduais, barreiras antecipadas.

Ação e manutenção

Conselheiro

Reforçar progressos, prevenir recaídas, celebrar o pequeno.

A mudança não é linear. A maioria das pessoas que mantém uma mudança passou por várias recaídas antes.

Prochaska & DiClemente, 1982; Prochaska & Norcross, Psychotherapy, 2001.

02

Hábito

Motivação não é euforia. Como um comportamento deixa de depender de decisão.

O tempo da automaticidade
66 dias

é a mediana para um novo comportamento se tornar automático, com variação de 18 a 254 dias entre as pessoas.

18 dias254 dias

Lally et al., European Journal of Social Psychology, 2010.

Pilar 2 · Hábito

Como um comportamento vira automático

01

Gatilho estável

O mesmo lugar, horário ou ação de sempre dispara o comportamento.

02

Rotina simples

Começar pequeno: fácil o bastante para fazer mesmo num dia ruim.

03

Recompensa imediata

Prazer, alívio, encontro. É o que o executor das 6h valoriza.

04

Repetição no contexto

Com o tempo, o gatilho chama a ação sem precisar decidir.

Ambiente complexo de prática

O hábito se sustenta na identidade

Açãocorrer no sábado
Conexãoo grupo, a conversa
Necessidadesvínculo e competência nutridos
Identidade“eu sou corredor”
EFEITO COLATERALo exercício vai de carona
63%dos participantes do parkrun seguem ativos após 6 meses. 53% após 12 meses.

Corrida gratuita de 5 km, todo sábado, sem ritmo exigido. Mais de 11 milhões de participantes em 23 países, sustentada por voluntários.

Grunseit et al., Prev Med Rep, 2020.

Vieses que o conhecimento não alcança

Não lute contra o viés. Desenhe o ambiente.

Mudar o ambiente

Tênis ao lado da cama. Frutas cortadas e visíveis. Sem doce em casa.

Pré-compromisso

Decidir no “estado frio”: marmitas no domingo, treino marcado com um amigo.

Nudges

Frutas à altura dos olhos, pratos menores, água como bebida padrão.

Trocar o hábito

Mesma deixa, nova resposta: estresse → cinco respirações, em vez do doce.

Kristal & Santos, G.I. Joe Phenomena, Harvard Business School, 2021.

03

Implementação

Transformar ação em motivação e consciência.

Pilar 3 · Implementação

Intenções de implementação

Se [situação], então [ação].

SE eu chegar em casa depois do trabalho, ENTÃO coloco o tênis e caminho 10 minutos.

Evidência forte

Metanálise com 94 testes independentes: efeito de médio a grande sobre o alcance de metas (d = 0,65). Gollwitzer & Sheeran, 2006.

E na sua vida? · Check-in

Seu cartão de embarque do saber para o fazer

  1. Aponte a câmera do celular para o QR code.
  2. Escreva seu plano: se ___, então ___.
  3. Baixe o cartão e deixe como fundo de tela.
thiagomatias.com.br/plano
2:00
CARTÃO DE EMBARQUEMOTIVAÇÃO EM SAÚDE
SABSaber
FAZFazer
Passageiro(a)
Portão · Se
Voo · Então
Assento
Embarque
Confiança
66 DIAS ATÉ O HÁBITO@dr.thiagomatias
Construir a meta junto

A meta certa é a que faz o paciente dizer: “isso eu consigo”

De 0 a 10, quão confiante você está de que vai cumprir essa meta?
0510
5Meta difícil demais. Simplifique.
Exclusão“Vou parar de comer doces.”
Inclusão“Vou incluir uma fruta no café da manhã.”
Resultado“150 minutos por semana.”
Aprendizado“Descobrir dois lugares novos para caminhar.”
Tudo de uma vezDieta, treino e sono na mesma semana.
Um ou dois por vez“Qual mudança faria mais diferença agora?”
Caixa de ferramentas

Estratégias para usar amanhã

Plano se-então

Defina antes a situação e a resposta. Inclua os obstáculos mais prováveis.

Empilhar hábitos

Ancore o novo comportamento em algo que já acontece todo dia.

Começar pequeno

Reduza a meta até ficar fácil demais para não fazer. Depois aumente.

Desenhar o ambiente

Deixe o comportamento desejado à vista e o indesejado longe do alcance.

Automonitoramento

Registrar o que se faz, e como se sente depois, torna o progresso visível.

Plano para recaídas

Combine antes o que fazer depois de um deslize: voltar no dia seguinte.

Quando o plano falha

Recaída não é falha moral. É informação.

A autonomia foi comprimida?

Controle demais, “você tem que”, plano imposto.

A competência enfraqueceu?

Meta irreal, comparação, sensação de “não consigo”.

O vínculo se rompeu?

Julgamento, vergonha, isolamento no processo.

A resposta mostra onde ajustar o plano. O que parece “falta de disciplina” muitas vezes é a base motivacional enfraquecida.

04

Pacientes e a própria vida

O profissional também é ambiente. E também é gente tentando mudar.

As palavras mudam o lócus

A mesma orientação, duas experiências opostas

ControlaVocê tem que caminhar todos os dias.Se não fizer, não vai melhorar.Não importa o que sua família come, siga a dieta.

Desloca a causa para fora: culpa, pressão, adesão temporária.

Apoia a autonomiaO que faz sentido para você?Vamos adaptar à sua semana.Por que isso importa: posso te explicar?

Desloca a causa para dentro: escolha, sentido, manutenção.

Técnicas de suporte à autonomia (escolhas, justificativas, linguagem não controladora) aumentam a motivação autônoma: Gillison et al., Health Psychol Rev, 2019 (74 estudos). Intervenções baseadas na TAD melhoram comportamento e saúde física e mental: Ntoumanis et al., Health Psychol Rev, 2021.

Na prática clínica

Um roteiro para a conversa com o paciente

01

Perguntar

O que é importante para você agora?

02

Ouvir

Reflita os motivos dele, não os seus.

03

Planejar

Um passo pequeno, com um plano se-então.

04

Combinar

Quando, onde e como vão acompanhar.

05

Acompanhar

Celebrar o progresso e ajustar o plano.

Inspirado na entrevista motivacional (Miller & Rollnick).

O profissional como agente de mudança

Ser “gente boa” é técnica, não personalidade

Conscientizar-se

Mudar hábitos é difícil, inclusive para nós. Em 56 países, 75–89% dos fisioterapeutas veem a prescrição de exercício como seu papel; poucos se sentem preparados.

Complexificar a tarefa

Variabilidade e desafio ajustado evitam o tédio e levam ao flow. A bicicleta ergométrica mata o impulso de explorar.

Garantir o clima

Segurança e desafio juntos. Perguntar do trabalho, da família, do futebol: “aqui eu importo”.

Karloh & Matias, Firing up the rehabilitation, Br J Sports Med, 2025.

Materiais

Leve os materiais com você

Os dois livros, a palestra e as referências desta aula: Motivação em Saúde e Mudar Hábitos, Transformar a Saúde (Manole, 2026).

thiagomatias.com.br

Livro Motivação em Saúde
Livro Mudar Hábitos, Transformar a Saúde: ferramentas da ciência para mudanças no estilo de vida
Dr. Thiago Matias
Obrigado

As pessoas sãomovimento.

Noah, filho do autor, no prefácio do livro.

Mudar é um processo. Dá para planejar.

Referências
  1. Matias T. Motivação em Saúde: como construir vidas ativas e transformar hábitos. Barueri: Manole; 2026.
  2. Matias TS, Piggin J. The unifying theory of physical activity. Quest. 2022;74:88-108.
  3. Strain T, et al. Global trends in insufficient physical activity among adults, 2000–2022. Lancet Glob Health. 2024;12:e1232-43.
  4. Guthold R, et al. Global trends in insufficient physical activity among adolescents. Lancet Child Adolesc Health. 2020;4:23-35.
  5. Santos LR, Gendler TS. Knowing is half the battle. Edge. 2014. · Kristal AS, Santos LR. G.I. Joe phenomena. HBS Working Paper 21-084. 2021.
  6. Danziger S, Levav J, Avnaim-Pesso L. Extraneous factors in judicial decisions. PNAS. 2011;108:6889-92.
  7. Albarracín D, et al. Determinants of behaviour and their efficacy as targets of behavioural change interventions. Nat Rev Psychol. 2024.
  8. Thaler RH, Shefrin HM. An economic theory of self-control. J Polit Econ. 1981;89:392-406.
  9. Deci EL, Ryan RM. The “what” and “why” of goal pursuits. Psychol Inq. 2000;11:227-68. · Ryan RM, Deci EL. Self-determination theory. Guilford; 2017.
  10. Schnohr P, et al. Various leisure-time physical activities associated with widely divergent life expectancies. Mayo Clin Proc. 2018;93:1775-85.
  11. Williamson C, et al. Get the message? A scoping review of physical activity messaging. IJBNPA. 2020;17:51.
  12. Michie S, van Stralen MM, West R. The behaviour change wheel. Implement Sci. 2011;6:42.
  13. Prochaska JO, Norcross JC. Stages of change. Psychotherapy. 2001;38:443-8.
  14. Lally P, et al. How are habits formed in the real world? Eur J Soc Psychol. 2010;40:998-1009.
  15. Grunseit AC, et al. Evidence on the reach and impact of parkrun: a scoping review. Prev Med Rep. 2020;20:101231.
  16. Gollwitzer PM, Sheeran P. Implementation intentions and goal achievement: a meta-analysis. Adv Exp Soc Psychol. 2006;38:69-119.
  17. Gillison FB, et al. A meta-analysis of techniques to promote motivation for health behaviour change. Health Psychol Rev. 2019;13:110-30.
  18. Ntoumanis N, et al. A meta-analysis of self-determination theory-informed intervention studies in the health domain. Health Psychol Rev. 2021;15:214-44.
  19. Miller WR, Rollnick S. Motivational interviewing. Guilford Press.
  20. Karloh M, Matias TS. Firing up the rehabilitation. Br J Sports Med. 2025;59:693-5.

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NotaTÉCNICA