Motivação, formação de hábitos e estratégias de implementação para mudanças que duram, em pacientes e na própria vida.
Dr. Thiago Matias Baseado no livro Motivação em Saúde (Manole, 2026)
MOVO-ME, LOGO PENSO
Quem fala
Thiago Matias
Doutor em Ciências do Movimento Humano. Professor e pesquisador do comportamento e da motivação humana.
UTPAAutor da Unifying Theory of Physical Activity, com Joe Piggin
~100pesquisas em periódicos nacionais e internacionais
GuiaPesquisador do Guia de Atividade Física para a População Brasileira
UNILIFE-MColaborador de um dos maiores estudos do mundo sobre estilo de vida e saúde mental
Essa aula é sobre a distância entre a percepção e a ação.
Uma era paradoxal
Nunca soubemos tanto. Nunca nos movemos tão pouco.
Adultos insuficientemente ativos no mundo. 5,7 milhões de pessoas, 197 países. Strain et al., Lancet Global Health, 2024.
81%dos adolescentes no mundo não atingem as recomendações mínimas de movimento.
1,6 milhão de estudantes, 146 países. Guthold et al., Lancet Child Adolesc Health, 2020.
A armadilha do saber
“Agora você sabe. E saber é metade da batalha.”
Bordão do desenho G.I. Joe, anos 1980. Santos & Gendler, 2014; Kristal & Santos, Harvard, 2021.
Juízes em Israel
65%→~0%
Liberdade condicional concedida no início da sessão e logo antes da pausa para comer. Profissionais treinados, cientes da imparcialidade, e com fome.
Danziger, Levav & Avnaim-Pesso, PNAS, 2011.
Revisão de determinantesIntervenções baseadas só em conhecimento têm efeito sem importância.
Educar é necessário. Mas conhecer um viés não nos torna imunes a ele.
Albarracín et al., 2024.
Um teste rápido
O que você prefere?
R$ 100hoje
OU
R$ 110amanhã
A maioria pega os R$ 100 agora.
R$ 100daqui a 30 dias
OU
R$ 110daqui a 31 dias
Quase todos esperam os 31 dias.
A mesma espera de 24 horas. Escolhas opostas. Isso é o desconto hiperbólico.
O despertador toca às 6h
Quem planeja não é quem executa.
Valor percebido de cada recompensa à medida que o momento da decisão se aproxima.
Eu planejadorVou correr, com certeza. A saúde vale mais.
Eu executorSó mais trinta minutos…
Mensagens sobre saúde futura convencem o planejador. Quem decide é o executor.
Thaler & Shefrin, Journal of Political Economy, 1981.
A ideia central
Saúde é um valor fundamental. Mas agimos apesar dela, não por causa dela.
Motivação em Saúde, cap. 9.
O caminho de hoje
Três pilares para uma mudança que dura
1
Motivação
Por que mudar: impulsos, necessidades, sentido. É o que dá início.
2
Hábito
Como repetir sem esforço: gatilhos estáveis, ambiente e identidade. É o que sustenta.
3
Implementação
Quando, onde e como agir: planos concretos para os momentos difíceis. É o que protege.
E, no fim, como levar isso para o consultório e para a própria vida.
01
Motivação
Por que nos movemos, e por que a qualidade da motivação importa mais que a quantidade.
A primeira mudança de comportamento
Minutos depois de nascer, o bebê rasteja até o seio da mãe.
choro→calmamedo→calordesespero→alimento
Penso, logo existo. Movo-me, logo penso.
A ação vem antes do sentimento.
Teoria Unificada da Atividade Física
Quatro impulsos nos colocam em movimento
01
Sentir
Buscar sensações para regular as emoções. Do equilíbrio na ioga ao bolo da receita da avó.
bem-estaralegriapresença
02
Explorar
Cruzar a fronteira entre o conhecido e o desconhecido. Onde há rotina absoluta, esse impulso morre.
curiosidadedesafiosuperação
03
Transformar
Exercer esforço para mudar o corpo e o mundo. O jardineiro e a terra, o artesão e a madeira.
progressomelhoraautonomia
04
Conectar
Vincular-se a si, aos outros e ao mundo pela ação. A torcida, a dança, a mesa compartilhada.
acolhimentopertencimentoencontro
Matias & Piggin, The Unifying Theory of Physical Activity, Quest, 2022.
Teoria da Autodeterminação
Os impulsos criam o potencial. As necessidades decidem se a ação dura.
SentirExplorarTransformarConectar
→
Autonomia
A pessoa escolhe e se reconhece na mudança.
Competência
Ela se sente capaz de conseguir.
Vínculo
Ela se sente apoiada por alguém.
→
Motivação autônomapersistência, vitalidade, saúde como consequência
Deci & Ryan, Teoria da Autodeterminação; Matias & Piggin, 2022.
Qualidade, não quantidade
Não importa só o quanto alguém está motivado. Importa por quê.
ControladaAutônoma
AmotivaçãoNão vejo motivo.
ExternaPorque me pressionam.
IntrojetadaPorque me sinto culpado.
IdentificadaPorque reconheço que é importante.
IntegradaPorque faz parte de quem eu sou.
IntrínsecaPorque sinto prazer.
O objetivo não é tornar tudo prazeroso. É deslocar a pessoa para a direita: da culpa para o valor, da obrigação para a identidade.
Ryan & Deci, 2017.
Copenhagen City Heart Study
Que esporte faz viver mais?
Tênis
+9,7 anos
Badminton
+6,2
Futebol
+4,7
Ciclismo
+3,7
Natação
+3,4
Corrida
+3,2
Calistenia
+3,1
Academia
+1,5
Os três primeiros exigem um parceiro. Há comunicação, jogo, riso e vínculo.
Nyhavn, Copenhague. Foto: Moahim, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
Anos de vida a mais em relação aos inativos, ajustados por idade, sexo, volume de atividade, tabagismo, escolaridade, renda, álcool e diabetes. 8.577 pessoas, até 25 anos. Schnohr et al., Mayo Clin Proc, 2018.
Modelo conceitual do estilo de vida
Da ação à consequência
01
Ação
Jogar tênis com os amigos, de novo e de novo.
→
02
Domínio social
A repetição constrói vínculos e pertencimento.
→
03
Mecanismo de enfrentamento
Necessidades nutridas regulam o estresse e reduzem a carga alostática.
→
04
Saúde cardiovascular
Menos risco patológico.
→
05
Longevidade
A soma desses processos ao longo do tempo.
As necessidades sustentam e mantêm a motivação para a ação
Tempo da ação: agoraTempo do resultado: décadas
Figura 2. Modelo conceitual do Estilo de Vida: da Ação à Consequência. Matias, Motivação em Saúde (Manole, 2026), cap. 3.
Comunicação em saúde
Fale com o começo da cadeia, não com o fim
Mensagem tradicional
Jogue tênis para reduzir seu risco cardiovascular em 20%.
Mensagem baseada em evidência
Jogue tênis para se divertir com seus amigos e aliviar o estresse de hoje.
Impulso→Necessidade→Motivação autônoma→Saúde, como consequência
Pergunte “que impulso essa atividade satisfaz?”, e não “que doença ela previne?”.
Williamson et al., Int J Behav Nutr Phys Act, 2020.
Um modelo para diagnosticar
O que precisa estar presente para o comportamento acontecer
Capacidade
Física e psicológica: saber e conseguir fazer.
Oportunidade
Física e social: tempo, acesso, ambiente, apoio.
Motivação
Reflexiva e automática: querer e ter o impulso.
→
Comportamento
Se falta um dos três, a mudança não se sustenta.
Modelo COM-B: Michie, van Stralen & West, Implementation Science, 2011.
Modelo transteórico
Cada estágio pede um profissional diferente
Pré-contemplação
Familiar compreensivo
Acolher, validar, informar sem ameaçar. Nada de pressão.
Contemplação
Professor socrático
Explorar a ambivalência com perguntas abertas e escuta reflexiva.
Preparação
Treinador experiente
Plano concreto, metas graduais, barreiras antecipadas.
Ação e manutenção
Conselheiro
Reforçar progressos, prevenir recaídas, celebrar o pequeno.
A mudança não é linear. A maioria das pessoas que mantém uma mudança passou por várias recaídas antes.
Motivação não é euforia. Como um comportamento deixa de depender de decisão.
O tempo da automaticidade
66 dias
é a mediana para um novo comportamento se tornar automático, com variação de 18 a 254 dias entre as pessoas.
18 dias254 dias
Lally et al., European Journal of Social Psychology, 2010.
Pilar 2 · Hábito
Como um comportamento vira automático
01
Gatilho estável
O mesmo lugar, horário ou ação de sempre dispara o comportamento.
02
Rotina simples
Começar pequeno: fácil o bastante para fazer mesmo num dia ruim.
03
Recompensa imediata
Prazer, alívio, encontro. É o que o executor das 6h valoriza.
04
Repetição no contexto
Com o tempo, o gatilho chama a ação sem precisar decidir.
Ambiente complexo de prática
O hábito se sustenta na identidade
Açãocorrer no sábado
Conexãoo grupo, a conversa
Necessidadesvínculo e competência nutridos
Identidade“eu sou corredor”
EFEITO COLATERALo exercício vai de carona
63%dos participantes do parkrun seguem ativos após 6 meses. 53% após 12 meses.
Corrida gratuita de 5 km, todo sábado, sem ritmo exigido. Mais de 11 milhões de participantes em 23 países, sustentada por voluntários.
Grunseit et al., Prev Med Rep, 2020.
Vieses que o conhecimento não alcança
Não lute contra o viés. Desenhe o ambiente.
Mudar o ambiente
Tênis ao lado da cama. Frutas cortadas e visíveis. Sem doce em casa.
Pré-compromisso
Decidir no “estado frio”: marmitas no domingo, treino marcado com um amigo.
Nudges
Frutas à altura dos olhos, pratos menores, água como bebida padrão.
Trocar o hábito
Mesma deixa, nova resposta: estresse → cinco respirações, em vez do doce.
Kristal & Santos, G.I. Joe Phenomena, Harvard Business School, 2021.
03
Implementação
Transformar ação em motivação e consciência.
Pilar 3 · Implementação
Intenções de implementação
Se [situação], então [ação].
SE eu chegar em casa depois do trabalho, ENTÃO coloco o tênis e caminho 10 minutos.
Evidência forte
Metanálise com 94 testes independentes: efeito de médio a grande sobre o alcance de metas (d = 0,65). Gollwitzer & Sheeran, 2006.
E na sua vida? · Check-in
Seu cartão de embarque do saber para o fazer
Aponte a câmera do celular para o QR code.
Escreva seu plano: se ___, então ___.
Baixe o cartão e deixe como fundo de tela.
thiagomatias.com.br/plano
2:00
CARTÃO DE EMBARQUEMOTIVAÇÃO EM SAÚDE
SABSaber
FAZFazer
Passageiro(a)
Portão · Se
Voo · Então
Assento
Embarque
Confiança
66 DIAS ATÉ O HÁBITO@dr.thiagomatias
Construir a meta junto
A meta certa é a que faz o paciente dizer: “isso eu consigo”
De 0 a 10, quão confiante você está de que vai cumprir essa meta?
0510
5Meta difícil demais. Simplifique.
Exclusão“Vou parar de comer doces.”
Inclusão“Vou incluir uma fruta no café da manhã.”
Resultado“150 minutos por semana.”
Aprendizado“Descobrir dois lugares novos para caminhar.”
Tudo de uma vezDieta, treino e sono na mesma semana.
Um ou dois por vez“Qual mudança faria mais diferença agora?”
Caixa de ferramentas
Estratégias para usar amanhã
Plano se-então
Defina antes a situação e a resposta. Inclua os obstáculos mais prováveis.
Empilhar hábitos
Ancore o novo comportamento em algo que já acontece todo dia.
Começar pequeno
Reduza a meta até ficar fácil demais para não fazer. Depois aumente.
Desenhar o ambiente
Deixe o comportamento desejado à vista e o indesejado longe do alcance.
Automonitoramento
Registrar o que se faz, e como se sente depois, torna o progresso visível.
Plano para recaídas
Combine antes o que fazer depois de um deslize: voltar no dia seguinte.
Quando o plano falha
Recaída não é falha moral. É informação.
A autonomia foi comprimida?
Controle demais, “você tem que”, plano imposto.
A competência enfraqueceu?
Meta irreal, comparação, sensação de “não consigo”.
O vínculo se rompeu?
Julgamento, vergonha, isolamento no processo.
A resposta mostra onde ajustar o plano. O que parece “falta de disciplina” muitas vezes é a base motivacional enfraquecida.
04
Pacientes e a própria vida
O profissional também é ambiente. E também é gente tentando mudar.
As palavras mudam o lócus
A mesma orientação, duas experiências opostas
ControlaVocê tem que caminhar todos os dias.Se não fizer, não vai melhorar.Não importa o que sua família come, siga a dieta.
Desloca a causa para fora: culpa, pressão, adesão temporária.
Apoia a autonomiaO que faz sentido para você?Vamos adaptar à sua semana.Por que isso importa: posso te explicar?
Desloca a causa para dentro: escolha, sentido, manutenção.
Técnicas de suporte à autonomia (escolhas, justificativas, linguagem não controladora) aumentam a motivação autônoma: Gillison et al., Health Psychol Rev, 2019 (74 estudos). Intervenções baseadas na TAD melhoram comportamento e saúde física e mental: Ntoumanis et al., Health Psychol Rev, 2021.
Na prática clínica
Um roteiro para a conversa com o paciente
01
Perguntar
O que é importante para você agora?
02
Ouvir
Reflita os motivos dele, não os seus.
03
Planejar
Um passo pequeno, com um plano se-então.
04
Combinar
Quando, onde e como vão acompanhar.
05
Acompanhar
Celebrar o progresso e ajustar o plano.
Inspirado na entrevista motivacional (Miller & Rollnick).
O profissional como agente de mudança
Ser “gente boa” é técnica, não personalidade
Conscientizar-se
Mudar hábitos é difícil, inclusive para nós. Em 56 países, 75–89% dos fisioterapeutas veem a prescrição de exercício como seu papel; poucos se sentem preparados.
Complexificar a tarefa
Variabilidade e desafio ajustado evitam o tédio e levam ao flow. A bicicleta ergométrica mata o impulso de explorar.
Garantir o clima
Segurança e desafio juntos. Perguntar do trabalho, da família, do futebol: “aqui eu importo”.
Karloh & Matias, Firing up the rehabilitation, Br J Sports Med, 2025.
Materiais
Leve os materiais com você
Os dois livros, a palestra e as referências desta aula: Motivação em Saúde e Mudar Hábitos, Transformar a Saúde (Manole, 2026).
thiagomatias.com.br
Obrigado
As pessoas sãomovimento.
Noah, filho do autor, no prefácio do livro.
Mudar é um processo. Dá para planejar.
Dr. Thiago Matias @dr.thiagomatias · thiagomatias.com.br
Referências
Matias T. Motivação em Saúde: como construir vidas ativas e transformar hábitos. Barueri: Manole; 2026.
Matias TS, Piggin J. The unifying theory of physical activity. Quest. 2022;74:88-108.
Strain T, et al. Global trends in insufficient physical activity among adults, 2000–2022. Lancet Glob Health. 2024;12:e1232-43.
Guthold R, et al. Global trends in insufficient physical activity among adolescents. Lancet Child Adolesc Health. 2020;4:23-35.
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Danziger S, Levav J, Avnaim-Pesso L. Extraneous factors in judicial decisions. PNAS. 2011;108:6889-92.
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Deci EL, Ryan RM. The “what” and “why” of goal pursuits. Psychol Inq. 2000;11:227-68. · Ryan RM, Deci EL. Self-determination theory. Guilford; 2017.
Schnohr P, et al. Various leisure-time physical activities associated with widely divergent life expectancies. Mayo Clin Proc. 2018;93:1775-85.
Williamson C, et al. Get the message? A scoping review of physical activity messaging. IJBNPA. 2020;17:51.
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Prochaska JO, Norcross JC. Stages of change. Psychotherapy. 2001;38:443-8.
Lally P, et al. How are habits formed in the real world? Eur J Soc Psychol. 2010;40:998-1009.
Grunseit AC, et al. Evidence on the reach and impact of parkrun: a scoping review. Prev Med Rep. 2020;20:101231.
Gollwitzer PM, Sheeran P. Implementation intentions and goal achievement: a meta-analysis. Adv Exp Soc Psychol. 2006;38:69-119.
Gillison FB, et al. A meta-analysis of techniques to promote motivation for health behaviour change. Health Psychol Rev. 2019;13:110-30.
Ntoumanis N, et al. A meta-analysis of self-determination theory-informed intervention studies in the health domain. Health Psychol Rev. 2021;15:214-44.
Miller WR, Rollnick S. Motivational interviewing. Guilford Press.
Karloh M, Matias TS. Firing up the rehabilitation. Br J Sports Med. 2025;59:693-5.